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20 novembro 2017

Hollywood, de Charles Bukowski



"O filme aparecia numa pequena tela que parecia um aparelho de TV. Passavam os créditos. Depois, vinha meu nome. Eu fazia parte de Hollywood, pelo menos por um pequeno instante. Era culpado."

Vivendo tempos atarefados que sugam toda a minha disposição para escrever o que quer que seja, descobri que a leitura de um bom Charles Bukowski é suficiente para me devolver alguma motivação para continuar alimentando este blog. O velho maldito alcoólatra ainda consegue me maravilhar com as suas palavras sinceras e diretas, e é somente um escritor do seu calibre que me faz sentar – depois de tanto tempo parado – diante de um editor de textos em um domingo à noite para esboçar uma resenha breve sobre um livro.

O Bukowski que terminei de ler hoje foi Hollywood (Hollywood, 1989), o seu último romance protagonizado pelo carismático (mas às vezes não tão simpático) Henry Chinaski, alter ego mundialmente famoso do velho Buk, tão alcoólatra, tão pervertido e tão ferino com as palavras quanto o seu criador de carne e osso.

A trama do romance é baseada nas experiências que Bukowski viveu enquanto escrevia o roteiro do filme Barfly, lançado em 1987, dirigido por Barbet Schroeder e protagonizado por Mickey Rourke e Faye Dunaway. Suas experiências como roteirista, na vida real, incluíram lidar com produtores e atores excêntricos, adaptar-se aos cortes de orçamento e encarar a nostálgica sensação de revisitar, através do próprio roteiro com traços autobiográficos, uma parte já distante de sua vida – os anos de alcoolismo mais pesados, a pobreza cruel, a incerteza de um futuro que só parecia querer condená-lo à miséria. Hollywood é basicamente sobre essa experiência de escrever um filme nos bastidores do cinema marginal de Los Angeles. No livro, temos Chinaski escrevendo o roteiro do filme A dança de Jim Bean, mas parece ser Bukowski quem está falando sobre ter escrito o roteiro de Barfly para a indústria do cinema.

Aliás, arrisco dizer que, em Hollywood, Chinaski e Bukowski se confundem mais do que em qualquer outro romance do escritor. Aqui, Chinaski é a transcrição literária exata do próprio autor que lhe dá vida: as loucuras feitas na jovem idade adulta são virtualmente as mesmas, o amor pela bebida é o mesmo, a relação com a escrita é semelhante. Frequentemente, o leitor se pega lendo “Bukowski” no lugar de “Chinaski”. Para quem conhece a obra do autor, essa simbiose nunca precisou ser disfarçada ou negada: é justamente a semelhança clara entre Bukowski e Chinaski que dá o sentimento necessário para que seus livros sejam adorados. E para que soem realmente autênticos.

"O roteiro ia bem. Escrever nunca foi trabalho para mim. Sempre fora assim, desde quando me lembrava: ligar o rádio numa estação de música clássica, acender um cigarro ou charuto, abrir a garrafa. A máquina fazia o resto. Eu só precisava estar ali. Todo o processo me permitia seguir em frente quando a vida oferecia tão pouco, quando a própria vida era um espetáculo de horror. Sempre havia a máquina para me acalmar, conversar comigo, me entreter, salvar meu rabo. Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo."

Faye Dunaway, Charles Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores de Barfly, em 1987

Entre as relações conturbadas – e algumas até amistosas – com produtores, diretores, atores e atrizes caprichosos e geniosos, o Chinaski que salta das páginas é um velho simpático, reservado, bondoso e finalmente sossegado. Ele vive sua vida pacata entre a máquina de escrever, as garrafas de vinho, o hipódromo, sua esposa e os gatos de estimação, aparentando – como sempre aparentou – não querer mais nada além do que já tem. Ele está visivelmente equilibrado financeiramente e sua carreira como escritor maldito parece consolidada. Quando o diretor underground Jon Pinchot surge já na primeira página lhe pedindo para começar a escrever um roteiro para o cinema, Chinaski reage com desinteresse e até com certo desdém diante da proposta, mas a aceita, relutante, meio que curioso para ver aonde essa empreitada pode levar – os 20 mil dólares prometidos, claro, ajudam a convencê-lo.

E acaba que a aventura rende bons episódios. Dentre as situações mais hilárias certamente estão as visitas de Chinaski e Sarah – sua esposa – à casa de Jon Pinchot e François Racine, um ator decadente. Ambos moram durante um tempo em um casebre localizado num bairro periférico de Los Angeles com altos índices de criminalidade, cujos vizinhos delinquentes e perigosos perturbam a sanidade de François. Há também as engraçadíssimas entrevistas que Chinaski concede a emissoras locais e internacionais, durante a produção do filme, nas quais o escritor zomba descaradamente da vida bizarra e até certo ponto falsa que artistas e críticos vivem em Hollywood. Está presente também o apego tragicômico de Chinaski ao álcool – o que sempre rende as situações mais inusitadas dos seus livros – e uma hilária e surreal ameaça de automutilação por parte de um dos personagens centrais. Hollywood é um legítimo romance de Bukowski, e seus leitores não sentirão falta da atmosfera pegajosa, engraçada e vulgarmente humana encontrada nos outros livros do autor.

"Voltei ao hipódromo. Às vezes me perguntava o que fazia ali. E às vezes sabia. Entre outras coisas, aquilo me permitia ver grande número de pessoas sob a pior luz, e isso me mantinha em contato com a realidade do que era feita a humanidade. A ambição, o medo, a raiva, tudo estava ali."



Leio Bukowski há mais de uma década. Nesses quase dez anos, acompanhei um Chinaski à deriva, perdido entre mulheres, empregos, idas ao hipódromo e fugas viscerais da realidade auxiliadas por uma máquina de escrever. Hoje, em Hollywood, encontrei um Chinaski diferente: um cara que vive sem sobressaltos, apoiado em alguma sabedoria extraída das experiências que teve ao longo da vida – ainda uma figura excêntrica, mas mais assentada, mais adaptada ao sistema. O que dá humanidade aos escritos de Bukowski/Chinaski é precisamente a sua capacidade de humanizar o trágico lado imundo da vida – de dar sentido à sarjeta, voz aos desajustados, graça à marginalidade. Em diversas passagens de Hollywood, Chinaski fala que odeia as pessoas, mas, bem feitas as contas, a força de sua literatura reside exatamente na paixão com que ele observa todos que circulam ao seu redor e na espontaneidade com que relata seus encontros com a humanidade.

Me parece curioso que tenhamos nos encontrado, eu e esse personagem, em momentos de mais maturidade para ambos. Há livros e autores que são lidos em momentos certos, sem que tenhamos planejado isso. É uma das magias da literatura. Viva Chinaski. Agora, me resta lamentar ter lido o último romance de Bukowski que faltava.

Vai o autor, ficam os livros – e as lembranças.

25 dezembro 2016

A Revolução dos Bichos, de George Orwell

"Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males da nossa existência têm origem na tirania dos humanos?"



Quem poderia imaginar que, mesmo setenta anos após seu lançamento, uma pequena fábula sobre a administração de uma fazenda pelos próprios animais que a habitam constituiria um dos principais argumentos contra a tirania de uma ditadura socialista? Certamente não os leitores ingleses contemporâneos de George Orwell, que acreditavam que A Revolução dos Bichos era apenas uma boba e tediosa história em que porcos, ovelhas, cavalos e patos falavam sobre a necessidade de se verem livres dos cruéis e inescrupulosos fazendeiros. Para a comunidade intelectual britânica da década de 1940 - e isso é o próprio Orwell quem diz -, este livro não passava de um lastimável desperdício de papel e tinta, dada a aparente infantilidade da trama. No entanto, pouco tempo foi necessário para que se descobrisse que essa fábula, que nada tem de tediosa e muito menos de boba, constitui um ensaio literário genial e muito preciso sobre quando as coisas começam a dar errado no socialismo.


E quando essa crítica vem de um escritor e jornalista como George Orwell, que se inclinava com simpatia para o socialismo de Karl Marx, o livro só pode se tornar uma coisa mais interessante ainda. 

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Sinopse: O sonho de um velho porco de criar uma granja governada por animais, sem a exploração dos homens, concretiza-se com uma revolução. Mas, como geralmente acontece com as revoluções, a dos bichos também desemboca para uma tirania, com a ascensão de uma nova casta ao poder. Neste conto feito sob medida para a Revolução Russa, “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.

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Qualquer leitor atento aos detalhes históricos emulados em A Revolução dos Bichos perceberá que a genialidade da obra consiste precisamente em ilustrar, da forma mais simples e objetiva possível, todo o percurso que uma ditadura socialista trilha desde sua gênese até seu declínio, sem que para isso o autor tenha precisado recorrer a uma trama política complexa que enfastie o leitor. Talvez por isso mesmo o livro tenha se tornado tão célebre e tão poderoso, já na década de seu lançamento: porque desenha, com traços que beiram o didático, algo que escapa à compreensão da maioria das pessoas. E esse desenho, simples em sua forma mas extremamente profundo em seu conteúdo, foi a maneira que Orwell encontrou para desmitificar ao mundo ocidental a experiência soviética com o socialismo.

O autor, que costumava se mostrar sóbrio em seus posicionamentos políticos e ideológicos, disse a certa altura (e esta afirmação está registrada no posfácio da edição da Companhia das Letras) que "A destruição do mito da URSS é essencial para conseguirmos reviver o movimento socialista". Isto explica porque uma pessoa como Orwell, declaradamente pró-socialismo, escreveu uma obra tão carregada de críticas ásperas a esse movimento político-ideológico: era necessário dizer ao mundo que Stálin não pôs em prática o socialismo com que todos os seguidores de Marx sonhavam; pelo contrário, que o Ocidente soubesse que o ditador russo transformou aquele país em uma oprimida sociedade cega pelo trabalho e pela obediência ao líder. Que George Orwell tenha encontrado em uma fazenda e nos animais que a habitam uma maneira de escrever uma história que atingisse esse objetivo, isso só pode ser explicado pelo talento brilhante que ele tinha como jornalista e escritor.




Depois de enfrentar certa resistência por parte de editoras que não queriam publicar o livro porque o consideravam atrevido e perigoso demais (uma editora norte-americana chegou a dar a desculpa de que na América não havia lugar para histórias com animais, em pleno apogeu de Walt Disney, e sabe-se lá porque uma editora norte-americana não queria a publicação de um livro anticomunista para a década de 1950), finalmente A Revolução dos Bichos encontrou o público e ganhou, aos poucos, o espaço destinado aos grandes clássicos da literatura. (Mais tarde, inclusive, a CIA utilizou a obra como propaganda contra o comunismo, chegando ao ponto de criar uma animação para resumir a história e transmiti-la na televisão.)

É curioso notar como as figuras que povoam a fazenda são rapidamente associadas a estereótipos indispensáveis para a compreensão de um sistema socialista totalitarista: Napoleão, o enorme porco que comanda a fazenda, é o ditador irredutível que faz ser cultuada a própria imagem e usa de estratagemas os mais deploráveis para manipular a massa alienada que está a seu serviço; Bola-de-Neve, também porco, representa o líder guerrilheiro carismático que ajudou a pôr a revolução em prática e que, mais tarde, acaba sofrendo golpes estratégicos dos próprios camaradas; Garganta, o porta-voz do governo, é o encarregado de dourar a pílula amarga nos tempos difíceis, ludibriando a população ao apresentar gráficos e tabelas falsos que mostram o quanto a granja está progredindo, apesar de tudo; Sansão, o cavalo proletário que não vê alternativa senão dedicar-se de corpo e alma ao trabalho exaustivo nas lavouras, conferindo total respeito e obediência ao líder; os próprios seres humanos, que são a encarnação mesma do capitalismo, a serem evitados a qualquer custo pelos animais... e assim por diante. 

Encarregado de transmitir às pessoas a ideia de que um sistema socialista pode ser uma péssima ideia se for mal executado, A Revolução dos Bichos descreve com uma habilidade indiscutível o quadro sinistro que pode surgir quando a sede pelo poder e pelos privilégios sobe à cabeça dos responsáveis por uma revolução que prometia igualdade, liberdade e abundância de recursos. Através da história destes animais, George Orwell nos mostra que uma sociedade pode derrubar um sistema que permite que uma elite enriqueça às custas do povo e, em seu lugar, instaurar um sistema que dá margem ao mesmo tipo de exploração, mas com uma aparência e um discurso ideológico diferente.

21 dezembro 2015

Resenhas em notas - #1



Depois de tanto tempo abandonado – mais precisamente, 11 meses e 20 dias –, este blog retorna à vida com uma nova seção sobre livros: a "Resenhas em Notas". Ela irá trazer pequenos parágrafos acerca das últimas leituras que andei fazendo. Através destas postagens, os leitores do Gato Branco poderão conhecer um pouco das minhas impressões sobre determinadas obras, e a ideia é fazer com que estes leitores ao menos se sintam contagiados pelas minhas experiências, narradas aqui da forma mais sucinta possível.

Penso em incluir em uma mesma postagem as últimas três leituras que fiz. Acho que é um bom número, mas vamos acompanhar o andar da carruagem. Nada de pôr os carros na frente dos bois – nada de criar muitas expectativas, principalmente se formos levar em conta que entrarei no mestrado no próximo ano e isso significará menos tempo disponível para a Literatura. Mas planos futuros são planos futuros.

Ao que interessa!


À noite andamos em círculos, de Daniel Alarcón



O jovem peruano Daniel Alarcón foi um escritor que conheci por acaso, o mesmo acaso que está tão presente na minha relação com os livros. Eu estava em uma livraria qualquer, andando a esmo, quando esbarrei no seu romance À noite andamos em círculos (At night we walk in circles, 2013). Já na metade da sinopse eu estava fisgado: o romance narra a história de um aspirante a ator de teatro que subitamente é contratado pela companhia que ele admirava muito desde a adolescência. Os anos de ouro desta companhia de vanguarda, o Diciembre, eram os anos 1970 – época em que criticar a ditadura local através da arte era um ato de ousadia necessária capaz de custar a vida.

Atualmente esquecido, o Diciembre parece estar fadado às memórias dos artistas de rua que fizeram parte daquela época. Com o intuito de reviver os seus tempos de glória artística – ao mesmo tempo em que é preciso superar alguns traumas do passado –, dois integrantes da antiga companhia decidem iniciar uma nova turnê pelo país, agora machucado pelas consequências de uma guerra civil. E é para esta nova turnê que Henry – o ex-líder do coletivo – e Patalarga – seu antigo colega – chamam o nosso protagonista. Juntos, os três reencenarão a peça sarcástica escrita por Henry décadas antes, que fizera tanto sucesso nos anos da ditadura, e atravessarão o país em busca de uma redenção para seus próprios fantasmas.

Genialmente escrito, o romance cativa o leitor já nas primeiras páginas e mantém em suspense uma trama cujo desfecho se espera sempre na página seguinte. É uma história feita de camadas, como muito bem disse o The New York Times, na qual elementos vitais são adicionados aos poucos, dando uma sensação de crescente deliciosa e perturbadora nos personagens e no enredo. Alarcón entrega aos poucos os pontos centrais da trama, com muita paciência. E quanto mais o leitor percebe sua própria ignorância diante do que está sendo narrado, mais ele se sente atraído pela história e maior é a sua vontade de virar as páginas.


Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani


Foi na primavera de 1976 que Tiziano Terzani visitou – por acaso – um adivinho em Hong Kong e recebeu o seguinte aviso: "Não viaje de avião ou de helicóptero no ano de 1993. Se o fizer, você muito provavelmente sofrerá um acidente. Não voe." Quando o fatídico ano finalmente chegou, Terzani estava com 55 anos de vida e, nas suas palavras, procurava algo com que pudesse sair da mesmice de sua profissão de jornalista e experimentar uma coisa nova, que desse um colorido diferente à sua rotina. Nunca tendo esquecido o que ouvira em Hong Kong, ele decidiu que em 1993 se locomoveria apenas via terra e mar, abdicando completamente dos aviões e dos helicópteros. A partir de Bangkok, na Tailândia, ele cobriria acontecimentos históricos na Indochina e escreveria artigos sobre os mais variados temas da cultura asiática – pela qual sempre fora apaixonado.

Um adivinho me disse (Un indovino mi disse, 1995) é um dos relatos de viagem mais deliciosos que já li. Ele ficou alguns anos abandonado na minha estante mas, quando o peguei para ler, simplesmente não o larguei mais. Fascinado pela Ásia, Terzani nos fornece um detalhado panorama da Indochina do início dos anos 1990, observando como o estilo de vida ocidental estava varrendo e apagando as tradições históricas dos povos desta parte do mundo. Levados pelo afã de acompanhar o progresso econômico europeu e americano, os asiáticos abraçaram a causa da modernidade em que os fins justificam os meios e, sem perceberem – ou percebendo e ignorando –, seu modelo cultural milenar era colocado à extinção.

O relato de Terzani, contudo, é embalado pela brincadeira de não tomar aviões neste ano fatídico, motivo pelo qual ele decide investigar o universo do "oculto" e do "sobrenatural", tão presentes no Oriente. Nas cidades da Ásia que ele visitou – e foram muitas, da Cingapura à Mongólia – Terzani sempre procurava o adivinho local e pedia-lhe para ler sua sorte. Neste exercício, o autor elabora uma visão de mundo sobre o poder do ocultismo e da astrologia e a compartilha com o leitor, tecendo bem-humoradas e inteligentes reflexões.


O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami

   

Nos anos de colégio, Tsukuru era membro de um grupo de amigos que tinham uma característica peculiar: todos eles possuíam o nome de uma cor distinta. Havia os homens, Azul e Vermelho, e as mulheres, Branca e Preta. E Tsukuru, que não possuía nenhuma cor associada ao seu nome. Mas o fato é que todos se davam muito bem e compartilhavam uma amizade intensa típica da adolescência. Porém, já no final do que no Brasil seria considerado o Ensino Médio, Tsukuru é subitamente expulso do grupo: seus amigos, aparentemente decepcionados, embaraçados e irritados, comunicam seu desligamento, dizem que vão cortar relações a partir de então e nunca mais entram em contato com o incolor Tsukuru. Sem saber o motivo desse afastamento forçado, mas com a impressão de que fizera algo de terrível para os amigos, o nosso protagonista se isola em si mesmo e vive os anos seguintes atormentado pelo episódio, até que decide ir atrás de cada antigo colega e, pessoalmente, tentar entender o que acontecera no passado.

Narrado com a melancolia e a nostalgia típica do autor, O incolor Tsukuru Tazaki… (Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi, 2013) é o segundo romance de Murakami que não inclui o seu sempre esperado realismo fantástico. Tal como Norwegian Wood, sua obra-prima, este romance finca os pés no chão e narra uma bela história sobre amizade e o peso dos anos em cima dos relacionamentos. Tazaki, que só possui o defeito técnico de se parecer absurdamente com todos os outros protagonistas dos livros do autor, é um jovem em busca do sentido da vida, um rapaz que procura – como todos nós – superar a árdua passagem da inocência da juventude para a áspera vida adulta, repleta de amores efêmeros, profissões monótonas e dias desperdiçados. Com uma narrativa simples e elegante e com um desfecho que surpreende o leitor, O incolor Tsukuru Tazaki… certamente vale o investimento e mostra por que Murakami é tomado como o porta-voz da mocidade nipônica.


Um lugar chamado Liberdade, de Ken Follett


Primeiro livro de Ken Follett que leio, Um lugar chamado Liberdade (A place called Freedom, 1995) conta a história de Mack McAsh, um rapaz que nasceu em uma família de escravos na Escócia e foi obrigado a trabalhar desde criança nas minas de carvão da poderosa família Jamisson. Paralelamente ao seu drama, somos apresentados a Lizzie Hallim, uma bela e esperta moça nascida no berço de uma decadente burguesia escocesa, presa aos ditames patriarcalistas que submetem as mulheres aos caprichos dos homens. Sedentos por liberdade, inconformados com as posições sociais nas quais foram criados, ambos buscarão superar os mais diversos obstáculos em busca dos seus sonhos.

Adepto das tramas folhetinescas, cujos enredos se assemelham aos roteiros de telenovelas épicas, Follett utiliza um pano de fundo histórico grandioso para narrar uma história empolgante mas superficial. O autor é cuidadoso em recriar os detalhes da época em que se passa seu romance – o que certamente se espera de um narrador de sua envergadura –, mas a intenção de escrever um livro para o grande público acaba fazendo com que tudo pareça contemporâneo demais, desde os diálogos até as situações vividas por seus personagens. A impressão que tive foi a de que a história, embora muito boa e interessante, estava fadada ao estilo contemporâneo de um best-seller fácil de digerir, e isso, para um romance histórico, compromete a experiência.

Um lugar chamado Liberdade possui reviravoltas que sem dúvida prendem o leitor às páginas do livro, e algumas de suas passagens são pertinentes como crítica social, mas não convém esperar da obra uma poderosa criação literária. Ela é um passatempo empolgante e instrutivo, e portanto válido, mas nada além.


Rádio Cidade Perdida, de Daniel Alarcón


Depois de ficar inebriado com a qualidade de À noite andamos em círculos, busquei os trabalhos antigos de Daniel Alarcón e me deparei com seu romance de estreia, Rádio Cidade Perdida (Lost City Radio, 2007). O tema dos dois únicos romances escritos pelo autor é o mesmo: um país latino-americano arrasado por uma guerra civil resultante de uma violenta repressão ditatorial, e as vidas comuns que foram afetadas por esse cenário dilacerante.

Nesta obra somos apresentados a Norma, uma radialista que ficou famosa após a guerra civil, quando inaugurou um programa de rádio destinado a fazer com que pessoas desaparecidas durante os conflitos reencontrassem seus familiares. Dona de uma voz extremamente acalentadora pela qual é reconhecida na rua, Norma vive seus dias atormentada por um episódio trágico: o desaparecimento do próprio marido dez anos antes, já nos momentos finais da guerra entre soldados do governo e rebeldes. Sua rotina muda completamente quando o pequeno Victor chega à cidade vindo de uma aldeia muito distante e, com ele, a promessa de informações inéditas sobre Rey, o marido ausente da protagonista.

Escrito com a mesma genialidade do outro romance, Rádio Cidade Perdida é um mosaico intrincado de flashbacks que não obedecem a uma cronologia linear mas que, quando somados, começam a fazer surgir a imagem nítida da trama principal. Para a literatura, este romance é o que 21 gramas é para o cinema: uma obra que destoa da narrativa tradicional, que oferece ao público uma miríade de recortes que fazem sentido na medida em que a história ganha corpo. Não é um livro fácil de ser lido, portanto, mas aqui isto não é um ponto negativo, porque qualquer leitor interessado capta o desenvolvimento da história sem grande esforço.

E a profundidade da obra, sua eloquência, sua riqueza reflexiva e seu primor estético envolvem o leitor já nos primeiros momentos e evidenciam o grande talento que Alarcón possui como contador de histórias. A América Latina, desde já, com sua gente pobre, com sua vida política conturbada e perigosa, mostra-se como a fonte da qual este escritor peruano bebe. Rádio Cidade Perdida é um romance de estreia, mas não de um iniciante.

29 dezembro 2014

A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa

"O país estava afundando, isolado e de quarentena por causa dos desmandos de um regime que, embora tivesse prestado serviços valiosíssimos no passado, havia degenerado em uma tirania que causava repulsa universal." (p. 353)

foto mario-vargas-llosa1

Ontem eu finalizei a leitura do livro A Festa do Bode (La Fiesta del Chivo, 2000), um dos grandes romances históricos escritos pelo peruano Mario Vargas Llosa, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2010. Eu já conhecia o autor através de duas ótimas obras que li há muito tempo, Travessuras da menina má e Tia Julia e o escrevinhador, que me revelaram o excelente contador de histórias que é este latino-americano – cujo domínio do espaço narrativo e cuja capacidade de construir personagens sólidas me impressionaram bastante desde o início.

Em A Festa do Bode, temos narrados os últimos dias do general Rafael Leonidas Trujillo Molina, ditador da República Dominicana entre 1930 e 1961, período em que governou o insular país do Caribe com mãos de ferro, perseguindo seus opositores e humilhando seus colaboradores para manter a autoridade. Paralelamente a isso, dois outros eixos compõem a narrativa: a visita de Urania Cabral a Santo Domingo, capital da República, já décadas após a queda do regime; e os minutos que antecedem o atendado ao ditador, orquestrado por um grupo de conspiradores ligados a Trujillo.

Cada eixo narrativo pertence a um tempo diferente, e assim o leitor encontra várias referências de um capítulo no capítulo seguinte, por exemplo, muitas vezes vendo o mesmo acontecimento ser narrado duas vezes – sob ângulos diferentes, a depender da personagem em questão. Longe de embaralhar a mente de quem lê, esse recurso coloca o romance sob uma tensão constante, tornando mais impressionantes algumas revelações e mais justificadas as ações de determinadas personagens. Muito apegado também à técnica do flashback, Vargas Llosa transforma a primeira metade de A Festa do Bode em um enredo de reminiscências, a fim de explicar a trajetória de cada personagem até o momento presente. Feito isto, a trama descamba para um thriller frenético – e assustador – sobre perseguição e tortura.


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O Oldsmobile 1956 usado pelos conspiradores para emboscar Trujillo repousa no Museo Nacional de Historia y Geografía de Santo Domingo


Do ponto de vista da técnica, o que mais me impressionou no livro foi justamente a narração formada por temporalidades fragmentadas, recurso que o autor utiliza com sabedoria para extrair o máximo proveito e contar da melhor forma possível uma história cheia de intrigas e reviravoltas. Do ponto de vista do conteúdo propriamente dito, o romance impressiona pela relevância do que é contado, pela necessidade de denunciar um regime totalitário assombroso que reinou durante 31 anos e que foi responsável por tanta dor e privação na vida de tantos dominicanos. E, assim, o que parecia ser uma nota-de-rodapé esquecida na História da América Latina acaba se transformando em uma interessantíssima abordagem literária sobre a tirania e as consequências do poder político absoluto.

Li A Festa do Bode em pouco mais de duas semanas e posso dizer seguramente que ele é um dos melhores livros do Llosa. É arriscado falar isso de um autor prolífico e muito bem recebido pela crítica, mas a verdade é que eu finalizei ontem a leitura de um dos melhores trabalhos deste que é considerado o melhor escritor latino-americano vivo. (Só não li o livro ininterruptamente, sem largá-lo, porque eu gostava de saborear a escrita requintada do autor em várias passagens, e esses momentos de deleite me consumiram bastante tempo.) No mais, embora o romance tenha um foco bastante político e isso afaste alguns leitores que não gostam do tema, A Festa do Bode dá espaço para o suspense e a intriga melodramática, o que o torna extremamente popular e prazeroso de ler, além de muito instrutivo. Llosa coloca o drama humano acima de tudo, inserindo-o num contexto em que decisões políticas extremas têm um enorme peso na vida das pessoas comuns.

Depois deste livro, considero Mario Vargas Llosa um dos mais fascinantes e inventivos autores que repousam na minha estante. Que venham os próximos títulos.

P.S.: Para ler meus comentários sobre os dois outros livros que li do autor, clique aqui (Travessuras da menina má) e aqui (Tia Julia e o escrevinhador).

Feliz Ano-Novo aos leitores do Gato Branco!